O pombo cisca o farelo de pão
jogado da janela.
Pedestres caminham apáticos
olhando para o chão.
O pombo e o menino dividem a mesma calçada,
o primeiro de passagem,
o outro estendendo a mão.
Pedestres retornam da jornada de trabalho,
exaustos,
sonhando com a vida que leva
o patrão.
Mas feliz é o pombo
que cisca e voa alto,
enquanto o menino, parado,
espera a solução.
Difícil saber quem é mais miserável nesse mundo.
Pedestres julgam o menino
sem ver que a outros alimentam
e ciscam feito pombos
nas mãos de seus patrões.
sábado, 3 de março de 2018
sábado, 6 de janeiro de 2018
A seta e o alvo
Andar em círculos de olho na reta.
O que impede ao tímido
mostrar o seu avesso?
Se faltar a voz, vire poeta!
A palavra é seta quando as voltas atrasam
o que pode ser dito,
caminho mais curto
pra chegar em algum lugar.
O que impede ao tímido
mostrar o seu avesso?
Se faltar a voz, vire poeta!
A palavra é seta quando as voltas atrasam
o que pode ser dito,
caminho mais curto
pra chegar em algum lugar.
sábado, 25 de novembro de 2017
Minguante
O coração míngua
junto com a lua
que do céu já não brilha
como na semana passada.
Voa passarada,
inverte maré,
muda o vento.
A natureza segue
se refazendo.
Mas aqui no peito,
pelo pouco que se tem feito,
sobra quase nada.
junto com a lua
que do céu já não brilha
como na semana passada.
Voa passarada,
inverte maré,
muda o vento.
A natureza segue
se refazendo.
Mas aqui no peito,
pelo pouco que se tem feito,
sobra quase nada.
domingo, 15 de outubro de 2017
Pra chuva que cai sem pressa
A natureza tem seu próprio tempo.
O vento que leva a semente,
a semente que germina,
a morte que leva gente
é a vida que a gente leva e termina.
Palavras também têm o seu momento,
não brotam do nada.
Sábio é quem busca conhecer o florescimento da matéria viva e,
em cada estação,
colhe o melhor do que se pode provar.
O vento que leva a semente,
a semente que germina,
a morte que leva gente
é a vida que a gente leva e termina.
Palavras também têm o seu momento,
não brotam do nada.
Sábio é quem busca conhecer o florescimento da matéria viva e,
em cada estação,
colhe o melhor do que se pode provar.
quinta-feira, 12 de outubro de 2017
Cabo de guerra
Nessa maratona sem plateia
o coração salta quando te vejo.
E eu que tanto contive o desejo
finco o pé no chão e já não fujo da disputa.
Depois do salto o cabo de guerra,
um de cada lado no ensejo.
A corda é elo que une e fere,
puxa, avança, cede e luta.
o coração salta quando te vejo.
E eu que tanto contive o desejo
finco o pé no chão e já não fujo da disputa.
Depois do salto o cabo de guerra,
um de cada lado no ensejo.
A corda é elo que une e fere,
puxa, avança, cede e luta.
Dúvidas
Como se esgota a ideia
que inunda as vagas da noite,
que dá sentido ao dia,
habita salas e quartos,
percorre ruas vazias?
Como fazer esquecimento
com tanta matéria viva,
enquanto o pensamento cria
atalhos que voltam ao ponto,
– ao mesmo ponto de partida!? –
sem fuga, sem rota de emergência,
sem placa que indique a saída?
Como secar o pranto
que brota de dor antiga,
a mesma dor sentida
no colo de qualquer mãe
ou ainda em sua barriga,
que nenhuma outra pessoa,
nem mesmo a dita mãe
é capaz de cessar?
Quem souber a resposta diga:
o sentido de toda a vida,
as vias para todas as saídas
e o remédio que a qualquer dor alivia.
que inunda as vagas da noite,
que dá sentido ao dia,
habita salas e quartos,
percorre ruas vazias?
Como fazer esquecimento
com tanta matéria viva,
enquanto o pensamento cria
atalhos que voltam ao ponto,
– ao mesmo ponto de partida!? –
sem fuga, sem rota de emergência,
sem placa que indique a saída?
Como secar o pranto
que brota de dor antiga,
a mesma dor sentida
no colo de qualquer mãe
ou ainda em sua barriga,
que nenhuma outra pessoa,
nem mesmo a dita mãe
é capaz de cessar?
Quem souber a resposta diga:
o sentido de toda a vida,
as vias para todas as saídas
e o remédio que a qualquer dor alivia.
quinta-feira, 14 de setembro de 2017
Mercado das carnes
No mercado de carne humana
leva mais quem fraciona
ou fraciona quem leva mais?
Eu sou feita de carne, osso,
alma e coração – diz a mulher.
– Não sou metade nem parcela,
e nem de Adão sua costela. Sou toda
e várias numa só. Um todo
que grita,
um todo que arde,
um todo que prosa
em liberdade. Não me venham fracionar
pra atender tuas vontades!
O corpo que retorce de desejo
também se faz,
de ponta a ponta,
nó.
E no varejo do afeto
enquanto prevalece o corte
melhor seguir os antigos:
sorte é ser inteira,
antes só que incompleto.
leva mais quem fraciona
ou fraciona quem leva mais?
Eu sou feita de carne, osso,
alma e coração – diz a mulher.
– Não sou metade nem parcela,
e nem de Adão sua costela. Sou toda
e várias numa só. Um todo
que grita,
um todo que arde,
um todo que prosa
em liberdade. Não me venham fracionar
pra atender tuas vontades!
O corpo que retorce de desejo
também se faz,
de ponta a ponta,
nó.
E no varejo do afeto
enquanto prevalece o corte
melhor seguir os antigos:
sorte é ser inteira,
antes só que incompleto.
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