sábado, 21 de novembro de 2015

Estômago

Aquilo que não digere fica no estômago.
Vira, revira,
vem quase à boca e volta.

Pedaço de memória morta,
carne ainda viva.
Gosto de noite não dormida,
sonho de novas auroras.

Da fruta indigesta não quero a polpa
nem o caroço.

Guardo meu paladar pra jantares sofisticados
com entrada, prato principal e sobremesa.
E, pela manhã,
um café para dois.

sábado, 17 de outubro de 2015

Autorretrato

Ele pergunta da minha vida,
gostos e ofício.
Digo que vivo de brisa
e cultivo hábitos de calmaria.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

"Sete Desejos" - Alceu Valença

Primavera

A pá que me foi dada um dia
pra cavar buraco mais fundo na terra
faço dela hoje sagrado cajado
e enterro, em vez de mim,
nomes e memórias.

Não faço mais da terra cova,
senão pra sepultar os restos
de palavra dita.

A terra, divinamente, tudo absorve,
até a podridão que sai das bocas. Vira adubo.
E alimenta a primavera das flores e da minha vida.

domingo, 5 de julho de 2015

"Lavo com água corrente
Teu poço dos velhos rancores
Faço uma nova lembrança no mesmo lugar"

(Lira - Pra fora da terra)

domingo, 21 de junho de 2015

Bolinho de chuva

Minha irmã sempre diz "escreva"!
Pensei... 
talvez seja um bom dia.
Domingo de chuva,
lembrei,
que na casa de minha mãe
não faltam poesia, conversas
e o bolinho da minha tia.

Mobília mínima II

“Cuidado: frágil!”
Diz o aviso na caixa de memórias.
Tanta vida, tantos sentidos incontidos ali,
em contáveis sorrisos e confidências que vivi -
ligados pelo afeto
que vai tecendo
o não tão curto
fio da minha história.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Branco

À cem por hora
o pensamento feito bala rasga a sala branca
cheia de bocas falantes, histéricas.
Possibilidades se abrem tanto quanto as bocas que falam.
Essas bocas,
essas estéreis paredes brancas,
pretenso universo de conhecimento,
sanatório de ideias
loucas.

Otto Meu mundo




"O desejo é um tempo parado
É quando se trocam as datas dos bichos e das flores
É quando aumenta a rachadura da velha parede
É quando se vira a folha, a folha da história
É quando se pinta um fio branco na cabeleira preta
É quando se endurece o rastro de sorriso
No canto dos olhos
Eu sei que a viagem é longa
A voz vai e vem
Você ta aí?
Você ta aí?
Ei, você está aí?
Vontade de abraçar o infinito"

sexta-feira, 27 de março de 2015

Mobília mínima

Desocupar a memória,
guardar esperanças.
Cabe ao coração o que fica.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Inquieta

Desperta.
Abre a janela,
sacode o lençol
e dobra a coberta.

O dia começa sem hora para os amantes.
Há pressa.
Cafés, sinais,
fechados semblantes.

Blindados arranha-céus.

De nada adianta conter o barulho dos alto-falantes
se por dentro não cessa o delírio da paixão,

que desperta
essa ânsia;

inquieta.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Desejo

O desejo ancorado à beira da praia;
um gancho no mar profundo,
outro na areia.
Por vezes revolve-se
querendo deslizar na superfície 
em que navegam estranhos aventureiros.
Estes seguem suas jornadas de rotas distantes e imprevisíveis.
Seguro, permanece o desejo nestas águas cristalinas.
De aventuras, agora, somente as memórias de naufrágios,
tempestades e corações partidos.

(Ilha Grande, 04/01/2015)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Poema de Ilha Grande

Mar salgado,
doce lembrança.
Avisto no horizonte, ao sul, o traço da menina que fui algum dia;
terra distante que aponta um passado remoto.

Rema, marinheiro, rema nessas águas suaves.
Alcança tesouros esquecidos nessa verde costa:
esmeraldas, rubis
e um coração enterrado em sacrifício por todo amor.