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domingo, 12 de abril de 2026

Paraty

 Tudo faz sentido agora.

A busca incessante de algo que ainda não sei.

A casa pouco a pouco vazia.

O beijo na varanda e o adeus - 

lembranças de tempos com gosto de sol.

O cheiro de café das auroras.

Mesa farta das férias em família.

Festa na cidade, carnavais, 

ciranda e maresia.

Escuto o silêncio de minha avó, 

vejo sua dura e doce fisionomia.

Piso no chão firme de minhas memórias

que tingem meus pés de vermelho.

Deslizo a mão sobre a parede dos meus sonhos 

pintada de branco com beirais azuis.

Ainda não sei aonde estou,

mas me encontro nos labirintos 

das ruas de pedras dessa cidade.

domingo, 10 de abril de 2022

Lições de labirintos

Pra não perder-me em labirintos
dou um laço no nome
de quem me estende a mão,
e sigo. 
Olho adiante. 
Certa de que na trama tecida em dores 
enlaço no fio da vida os amores,
aqueles que vêm e os que vão.

terça-feira, 24 de julho de 2018

Time is money

Tempo é dinheiro, dizem
Quase acreditei.
Nos segundos onde as contas imperam
como Deus das criaturas,
reinam também os sentidos,
aromas e texturas;
beija-flor paira no ar.
Tempo é valor que não se calcula.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Folhas secas

Soltos
os pássaros voam.
Inspiram-se em seus movimentos as folhas secas;
flutuam numa rebeldia libertária e ignoram a própria morte.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Previsão dos tempos

Não se vê a luz do sol nessas manhãs de abril.
Da janela prevalece o cinza confundindo o céu com as fachadas dos prédios da cidade.
Tudo é concreto
A rachadura no canto dos olhos cansados
e a dor que vai aos poucos endurecendo os corações.

sábado, 3 de março de 2018

Migalhas

O pombo cisca o farelo de pão
jogado da janela.
Pedestres caminham apáticos
olhando para o chão.
O pombo e o menino dividem a mesma calçada,
o primeiro de passagem,
o outro estendendo a mão.

Pedestres retornam da jornada de trabalho,
exaustos,
sonhando com a vida que leva
o patrão.
Mas feliz é o pombo
que cisca e voa alto,
enquanto o menino, parado,
espera a solução.

Difícil saber quem é mais miserável nesse mundo.
Pedestres julgam o menino
sem ver que a outros alimentam
e ciscam feito pombos
nas mãos de seus patrões.

sábado, 6 de janeiro de 2018

A seta e o alvo

Andar em círculos de olho na reta.
O que impede ao tímido
mostrar o seu avesso?
Se faltar a voz, vire poeta!
A palavra é seta quando as voltas atrasam
o que pode ser dito,
caminho mais curto
pra chegar em algum lugar.

sábado, 25 de novembro de 2017

Minguante

O coração míngua
junto com a lua
que do céu já não brilha
como na semana passada.
Voa passarada,
inverte maré,
muda o vento.
A natureza segue
se refazendo.
Mas aqui no peito,
pelo pouco que se tem feito,
sobra quase nada.

domingo, 15 de outubro de 2017

Pra chuva que cai sem pressa

A natureza tem seu próprio tempo.
O vento que leva a semente,
a semente que germina,
a morte que leva gente
é a vida que a gente leva e termina.
Palavras também têm o seu momento,
não brotam do nada.
Sábio é quem busca conhecer o florescimento da matéria viva e,
em cada estação,
colhe o melhor do que se pode provar.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Cabo de guerra

Nessa maratona sem plateia
o coração salta quando te vejo.
E eu que tanto contive o desejo
finco o pé no chão e já não fujo da disputa.

Depois do salto o cabo de guerra,
um de cada lado no ensejo.
A corda é elo que une e fere,
puxa, avança, cede e luta.

Dúvidas

Como se esgota a ideia
que inunda as vagas da noite,
que dá sentido ao dia,
habita salas e quartos,
percorre ruas vazias?

Como fazer esquecimento
com tanta matéria viva,
enquanto o pensamento cria
atalhos que voltam ao ponto,
– ao mesmo ponto de partida!? –
sem fuga, sem rota de emergência,
sem placa que indique a saída?

Como secar o pranto
que brota de dor antiga,
a mesma dor sentida
no colo de qualquer mãe
ou ainda em sua barriga,
que nenhuma outra pessoa,
nem mesmo a dita mãe
é capaz de cessar?

Quem souber a resposta diga:
o sentido de toda a vida,
as vias para todas as saídas
e o remédio que a qualquer dor alivia.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Mercado das carnes

No mercado de carne humana
leva mais quem fraciona
ou fraciona quem leva mais?

Eu sou feita de carne, osso,
alma e coração – diz a mulher.
– Não sou metade nem parcela,
e nem de Adão sua costela. Sou toda
e várias numa só. Um todo
que grita,
um todo que arde,
um todo que prosa
em liberdade. Não me venham fracionar
pra atender tuas vontades!
O corpo que retorce de desejo
também se faz,
de ponta a ponta,
nó.

E no varejo do afeto
enquanto prevalece o corte
melhor seguir os antigos:
sorte é ser inteira,
antes só que incompleto.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Esquecimento

No exercício de esquecimento
caminho em círculos em busca da reta fora da curva,
sou um sedento a espera da água da chuva
sentado na beira do mar.

E na miragem da sede que não cessa
é o teu nome que eu chamo.
Não me amas, ainda te amo.
Conjugação que não fecha,

ponto fora da reta,
sede d’água de chuva.
Fico no mesmo lugar.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Poema do adeus

Todos os poemas foram escritos pra você,
até aqui.
Até aqui, todos os poemas têm você nas entrelinhas.
Estou farta de você em tanta poesia.

Daqui pra frente os meus versos serão livres,
serão livres os meus verbos,
os meus gestos, tudo.

Decreto que libertarão de ti
os meus afetos.
Nem raiva e nem saudade.
Mais essa linha e nenhuma outra além.

Despeço-me de ti agora,
por aqui
e até aqui.
Adeus.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Outras primaveras

Tenho segredos de flores guardados
no quintal,
das rosas, vermelhas, azuis e amarelas,
todas as cores.
Aprendi com minha avó o cuidar
das coisas simples,
por ela tudo floresce e perfuma.
"Podam-se as dores pelo talo",
disse uma vez. Eu nunca esqueci.

Tenho segredos de flores guardados
no quintal sem muro.
Favor chegar com os pés mansos, descalços, 
olhos fechados,
e deitar sereno sobre a grama verde.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Amor nos tempos da internet II

Quem sabe o que se passa na caixa escura do pensamento?
Não tem código que desvende a solidão humana
que reside nas fendas de um coração ameaçado
pela dor,
pelas ausências
e pelo perfume que se esvai com o vento.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Amor nos tempos da internet

Deslizo, gentilmente, minha mão de mouse em sua face colorida
– na foto do perfil.
Declaro o que sinto olhando bem no fundo da tela.
Assumo o incontornável desejo, com voz firme, para os microfones.

Não há o que esconder,
tudo está aberto aos quatro cantos
do meu quarto.

Tudo acontece
(na realidade virtual).

sábado, 3 de dezembro de 2016

Mais dia, menos dia

Um dia a mais sem você
é um dia a menos de você
é, apesar de você, dia
qualquer dia.

Um dia com você
é todo um dia,
mesmo que não seja dia.

Noite toda com você
não é mais um dia.

sábado, 5 de novembro de 2016

Ladrão de meia tigela

Você que me rouba de mim e não se entrega
ladrão de meia tigela que espreita na noite,
que toma de assalto um beijo distraído
e foge com medo dos próprios instintos

Arranco de ti confissões sem palavras,
subverto meu ódio e transformo em afago.
Afasto antes que me arrependa do fim
e não te ameaço por pena da tua miséria.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Alucinação

O silêncio que enlouquece, um açoite.
Grito seu nome pra dentro de mim.
Passos que seguem outras direções,
agarro assim a lembrança de quando
a lua se fez sol.

Sua imagem surgindo na porta,
miragem no deserto da noite.
Voz que não escuto, distante.
Olhos que não enxergam o fim.