sexta-feira, 29 de outubro de 2010

(des)Classificados

"Perdi o relógio de minha mãe. A última,
ou a penúltima, de minhas casas queridas
foi-se. Não tarda aprender, a arte de perder."
(Elizabeth Bishop)

***

Procuro uma casa:
ampla, sol da manhã,
quintal com garagem,
dois andares ou mais
pra viver perto das nuvens.

Acabo de deixar minha antiga casa.
Não foi uma saída dramática
como quem é expulso, desapropriado,
como quem perde no leilão,
perdida no jogo.
Na verdade, não era minha propriedade,
mas nela habitava há alguns anos.

Já perdi outras casas, cada uma de um jeito.
Dessa vez o problema estava na estrutura e na vizinhança
- quase sempre hostil.
Tentei reformar, nada adiantou.
Conheci de perto a vizinhança e descobri que o meu perfil não combinava com o bairro.
Resolvi sair antes que a casa caísse.

Hoje meu teto são as estrelas
e nada é mais libertador do que fazer do mundo um lar.

Mas, ainda assim, gosto de casa:
quintal pra brincar,
flores pra pendurar no cabelo e
quarto para hospedar amigos de verdade.
Não precisa ser perfeita,
só não dispenso janelas pra sentir o sol.

domingo, 10 de outubro de 2010

Ser Invisível

Não me reconheço mais: esse corpo largo não é meu, nem esse sorriso amarelo. Não consigo ver parte minha nas pessoas ao meu redor, também não vejo parte delas em mim. Sou um todo indefinido.
Caminho sem rumo, estranhamente. Por sorte, encontro pistas que remetem a lugares conhecidos. O último ponto da praia: estou em casa. Agradeço ao motorista - que diz não dar moleza pra patrão - e sigo.
As coisas que identifico não fazem parte do agora, são sombras do que vivi, pertencem a outro tempo. Entretanto, elas me conferem alguma direção ainda que passageira, pois não estou aonde gostaria de estar.
Pergunto com minha boca sem voz como me enxergar nesse tempo? Como reconhcer no outro o que o meu próprio espelho não reflete?