Faz tempo que não escrevo outra coisa que não seja sobre cachaça, escravizados e o Brasil no século XIX. Aliás, meu conhecimento teórico (veja bem, teórico) em relação à “malvada da pinga” só tem aumentado. Entretanto, não sou uma grande apreciadora da bebida. No campo do álcool meu negócio é uma cervejinha gelada de vez em quando. E bem de vez em quando mesmo, pois recentemente respondi um questionário que minha irmã arrumou – esses testes de psicologia pra calcular níveis de ansiedade, pânico etc – e, espantosamente, o meu consumo de álcool foi apontado em estado de alerta! Bom, já tinha resolvido durante as férias de janeiro que só voltaria a beber no carnaval e, à exceção de uma ou duas latinhas, mantive minha promessa de pé.
Mudando de assunto, já que o efeito do álcool na minha vida não é a temática desse texto – pelo menos não foi a intenção inicial (... seria isso um indício do excesso?) – quero escrever um pouco sobre o carnaval, especificamente o meu carnaval.
Mais um ano que acompanho os blocos de rua do Rio de Janeiro. Dessa vez a produção das fantasias foi uma diversão à parte: passeio no saara quinta e sexta, correndo atrás de acessórios e maquiagens coloridas, pesquisa de preço etc.; investimento pesado pra aproveitar os dias de folia. Tudo certo.
Comecei a farra, então, no sábado: bloco do Barbas, em Botafogo. Nosso bloco dentro do bloco, o Barbie de Barbas, foi um sucesso pela segunda vez consecutiva. Ideia original de Vanessa Brunow, a fantasia consiste em brincar com a delicadeza (pra não dizer frescura) da imagem da boneca com a barba grosseira, símbolo do bloco em questão. E lá fomos nós, um grupo de mulheres vestidas de rosa, com tiara na cabeça e uma barba irritante que coçava o nariz o tempo todo. Arrasamos! Agora já posso dizer que tive meus quinze segundos de fama, mas na verdade o assédio durou o tempo em que o bloco estava na rua. Entre uma foto e outra, um gracejo: “mulher de bigode nem o diabo pode”! Uma farra só! Todas nós ali, felizes, com o nosso bloco dentro do bloco.
A maratona recomeçou no domingo de manhã com o Boitatá. Acordei cedo por causa do horário marcado para a saída do bloco. Vesti minha fantasia de camponesa “romântica” e fui. Já de saída uma flor ficou no asfalto da Amaral Peixoto, pois tive que correr pra pegar a barca das 10h. Trágico... fiquei triste porque a flor dava um charme na fantasia. Mas isso não podia tirar a animação da festa: improvisei um arranjo e parti com minha cestinha de flores rumo à praça XV. Tanto esforço pra pouco resultado: bloco cheio, furto na multidão (levaram a carteira e o celular de um amigo), dor na coluna, de camponesa virei jardineira-vendedora de flores (por causa da cestinha que abandonei no meio do caminho), desencontro com amiga e mal estar generalizado. Às 14h já estava em casa de banho tomado e barriga cheia. Primeiro estranhamento do carnaval: como posso não estar na rua no segundo dia de folia? Não sei, mas não achei ruim. Fiquei a tarde toda entregue ao sofá e à tv a cabo. Consolando-me, pensei: ainda tenho tempo para aproveitar os blocos.
Raiou o céu nublado da segunda e com ele a esperança de um dia mais animado. Dessa vez a cerveja seria bem vinda pra garantir a disposição para pular de um bloco a outro. Partimos rumo ao Sargento Pimenta, mas não conseguimos encontrar a banda. Tranqüilo. Bloquinho cult que não me interessava muito. Decidimos ir direto pra Copacabana e esperar pacientemente o Rancho Flor do Sereno – a flor do carnaval. Viagem tranqüila de ônibus, descemos no posto 4 que ficava distante a dois postos do palco. Mais uma vez o álcool em minha vida: de ambulante a ambulante, nos entregamos à euforia ilusória da bebida. Bloco na rua, tudo lindo e maravilhoso. É realmente um repertório especial dessa bandinha (no sentido carinhoso). Mas... como tudo tem seu preço, lembro partes de coisas tristes e partes de coisas felizes. O enredo completo ficou na beira da praia. Na volta pra casa o segundo estranhamento: qual o sentido dessa festa? (levem em consideração o efeito do álcool, nesse caso, claro). Fui com a cabeça à mil.
Terça, último dia. Confesso que já estava esgotada fisicamente e emocionalmente com a maratona. Não sei como o momo pode ser representado por uma figura gordinha com esses carnavais de hoje em dia. Tem que ter muita disposição! E nem sei se antigamente era diferente... enfim. Saí de casa com a injeção de ânimo de minhas amigas que apelaram dizendo que era o último dia e que depois disso só no ano que vem. Terceiro estranhamento: temos mesmo que “pular” o carnaval do início ao fim? Temos! – foi o que elas disseram. Graças a elas pude ver a beleza da Orquestra Voadora no MAM, um espetáculo de bloco.
Quarta-feira de cinzas: fim de festa. Acordei mais de ressaca moral do que qualquer outra coisa e tentei colocar as ideias em ordem. Li e ouvi muitas críticas em relação ao carnaval de rua do Rio: tá ficando cheio demais, playboyzada solta, blá, blá, blá. Concordo que o perfil dos foliões tenha mudado um pouco (passo o carnaval no Rio desde 2006, se não me engano), mas não acho isso necessariamente ruim. No mínimo, a situação mostra que as pessoas estão buscando algo diferente das cordas, dos abadás padronizados e das músicas pasteurizadas. Nada se compara à beleza simples das marchinhas, à criatividade das fantasias e a sensação de viver num mundo de faz de contas em que você pode ser quem você desejar – um vampiro, um pierrô, um palhaço – nesses dias o diferente é aquele que anda à paisana. Em relação à playboyzada, o Rio está cheio deles e delas também, se vier gente de fora com esse perfil vai encontrar algum bloco que se identifique.
Para mim, o melhor do carnaval foi justamente esperar por ele. Desde o final do ano passado fui a alguns ensaios do Escravos da Mauá, no famoso largo da Prainha. Também dei um pulinho no Beco do Rato que, infelizmente, agora cobra pra entrar e tem fitinha de boate no pulso. A abertura do carnaval foi outra maravilha, no dia 9 de janeiro (acho). Nesse tempo pude apreciar cada momento com calma, sem exaustão, na companhia de bons amigos. Fui aos poucos me aquecendo pra grande festa, a mais esperada, mas que no final não foi tão boa como imaginava.
Dos estranhamentos que tive (1. Como não estou na rua em dia de carnaval?; 2. Qual o sentido do carnaval?; e 3. Temos que participar do início ao fim?) até agora obtive poucas respostas. Uma delas é que não tive a mesma disposição dos anos anteriores: a ideia de passar o dia inteiro pulando de bloco em bloco, entrar na muvuca e ficar em pé boa parte do tempo me assustava profundamente. Mesmo com o estranhamento de estar em casa no domingo, sendo eu tão dedicada à causa carnavalesca, resolvi encarar o fato de que nossas vontades mudam e pronto, sem problema. Sobre o sentido do carnaval, isso ainda é um mistério para mim, mas recorro às palavras de um amigo que certa vez escreveu se referindo a ele como um “louvor frenético a alegria vã; O deus do homem moderno”. Relendo agora, faz todo sentido. Foi exatamente uma das impressões que tive durante esses quatro dias. Talvez uma das razões de tamanho vazio seja a lógica de romper a órbita, quebrar a rotina, o que tira um pouco nossos pés do chão. O porque ou a necessidade de embarcarmos nesse carro desgovernado eu não sei. O que sei é que fui uma passageira sem estar convicta de que queria estar ali.
Passageira num carro desgovernado. Sem perceber acho que resumi o turbilhão de pensamentos que varriam minha cabeça. É uma dúvida se no próximo ano pendurarei a sapatilha, mas hoje busco algo que substitua a alegria vã, as sensações efêmeras. Prefiro o carnaval do ano inteiro, sereno, com um encanto diferente ao daquela flor que desabrochou segunda-feira de carnaval, nas areias de Copacabana.