Certas datas são comemoradas com toda pompa que a tradição recomenda e por isso serão sempre lembradas: o primeiro ano de vida de uma criança, o baile da debutante, a maioridade e assim sucessivamente. Hoje eu quero falar dos meus 28 anos, pois mesmo sem carregar tradição alguma essa data ficará marcada como uma das comemorações mais bonitas que eu já tive.
A comemoração dos meus 28 anos não foi em salão alugado, não teve dj e convite antecipado. Não, nada disso. Nem eu sabia que seria convidada para os meus 28 anos.
Chega um momento que a gente percebe que todo aniversário é a mesma coisa. Pessoas ligam desejando felicidades, alguns cobram um bolo para cantar “Parabéns pra você”, os mais próximos dão “uma lembrancinha”, os mais distantes cumprimentam por educação e outros até surpreendem pela atenção concedida. Há também aqueles que esquecem completamente e não mandam nem uma mensagem pelo orkut. Entra ano e sai ano, tudo igual. Isso não significa que devemos deixar de comemorar. A questão é: comemorar o quê? Justamente. Essa é a questão.
Quando acordei com 28 anos completos percebi que seria mais um aniversário burocrático. Preparei o espírito para agradecer os muitos parabéns que receberia ao longo do dia. Fiquei um pouco triste por ser uma terça-feira, já que os amigos estariam ocupados e não poderiam comemorar comigo, totalmente compreensível. A família também estava longe.
Almocei um miojo porque não tive tempo de comprar nada especial para o cardápio, e nem ânimo para preparar um prato elaborado depois de passar a manhã inteira na rua resolvendo pendências, num calor insuportável. Mas, afinal de contas, era um dia normal como todos os outros. Não tinha problema comer miojo no aniversário.
Resolvi limpar o quarto e lavar roupas – tarefas normais para um dia normal (quer dizer, só para aqueles que não têm quem as faça no seu lugar, claro!). Depois de tudo feito, um bom banho para relaxar e sentar em frente ao computador para adiantar um ou outro trabalho.
Pois bem.
Alguma coisa começou a mudar no meu dia que passava em branco. Saí do banho e qual a minha grata surpresa? Um apetitoso bolo de chocolate com granulado estava sobre a mesa à minha espera – todinho pra mim! Ao mesmo tempo um cheiro de cachorro-quente pairava no ar enquanto cozinhava na panela. Comi dois cachorros depois de pronto e cantei “parabéns” antes do bolo de chocolate. Fiquei realmente feliz com a comemoração dos meus 28 anos em minha casa, tudo por conta das minhas companheiras de apartamento.
Depois disso, dirigi-me ao computador como havia planejado para o restante da noite. Tudo ia bem até que mais uma pendência bagunçou o meu sossego. Precisava resolver um problema de trabalho com uma amiga, urgentemente. Já estava de pijama e com uma preguiça enorme de sair de casa. Não tinha jeito, tinha que ir. Ela ainda disse:
- Desculpa, eu sei que é seu aniversário...
Tudo bem, não estava fazendo nada de muito importante. Coloquei uma calça e fui. No caminho pensei que talvez fosse uma armadilha para uma festa surpresa – será? Claro que não! Que inocência a minha achar que poderia ser uma coisa dessas! Isso é coisa do tempo da graduação quando ninguém tinha muito o que fazer. Ô, tempo bom! É trabalho, com certeza. A vida está séria e os prazos estão apertados. Além do mais é terça-feira, todo mundo está trabalhando.
Desci do ônibus. Cheguei ao prédio e pedi que avisasse pelo interfone que estava subindo. Lá em cima a porta estava entreaberta me esperando. Bati e entrei sem cerimônia. Tudo estava escuro e silencioso. De repente ouço: “Parabéns pra você...” de novo.
Comi outro cachorro-quente e mais uma fatia de bolo de chocolate, dessa vez um rocambole, na verdade. Conversamos, rimos, trocamos, confidenciamos. E voltei pra casa ainda mais feliz.
Num dia comum, sem planejar coisa alguma que não fosse ficar em casa e cumprir algumas tarefas domésticas, tive duas festas, dois bolos, duas panelas de cachorro-quente, dois “Parabéns pra você” e mais de dois amigos festejando comigo. Foi justamente isso que eu comemorei nos meus 28 anos.