sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Aviso

Tenha cuidado com as palavras.
Palavra tem peso, tem que ser medida.
Toda palavra dita, mesmo sem pensar,
passa a ser sentida.

Palavra é delicadeza,
pluma de algodão que o vento leva
com ou sem destino.
Expelida feito lava de vulcão
ela queima, destrói e fere;
vira desatino.

Mas, se a palavra não espera,
quando o verbo atropela a reflexão,
melhor que tudo seja dito;
desata os nós do coração.

Só não esqueça que palavras têm peso
e que a estupidez se resolve com apenas uma: perdão.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Poema apressado

Este poema apressado não passa de um peso descarregado
dentre outros
de reconhecida força e gravidade.

Pois de tudo resolvo: contas, trabalhos, prazos, necessidades.
Só não saio ilesa ao enfrentar isso que me espreme o peito,
contrariando vontades;
estanca corredeiras com invisível barreira de blocos de concreto.

Assim é a saudade.
Entremeia-se em qualquer canto de pensamento que se encontre vazio,
instala-se silenciosa e grita,
seja noite, tempo de estio.

Este poema erradio não passa de uma tentativa de desapego.
Se desse peso não consigo me soltar,
encontro um meio-fio e rabisco estas palavras

- caso contrário a saudade me mataria.
Mas, antes a poesia.
Sim, antes a poesia
e depois acreditar que tudo se transforma em leve sossego.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A arte de perder - Elizabeth Bishop

A arte de perder não tarda aprender;
tantas coisas parecem feitas com o molde
da perda que o perdê-las não traz desastre.

Perca algo a cada dia. Aceita o susto
de perder chaves, e a hora passada embalde.
A arte de perder não tarda aprender.

Pratica perder mais rápido mil coisas mais:
lugares, nomes, onde pensaste de férias
ir. Nenhuma perda trará desastre.

Perdi o relógio de minha mãe. A última,
ou a penúltima, de minhas casas queridas
foi-se. Não tarda aprender, a arte de perder.

Perdi duas cidades, eram deliciosas. E,
pior, alguns reinos que tive, dois rios, um
continente. Sinto sua falta, nenhum desastre.
- Mesmo perder-te a ti (a voz que ria, um ente
amado), mentir não posso. É evidente:
a arte de perder muito não tarda aprender,
embora a perda - escreva tudo! - lembre desastre.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

A Ostra e o Vento

O mar, do além, ordenou suas ondas a me chamar.
Insistente, num falso remanso, esconde de mim a tormenta
que tanto temeu antigos navegantes.

Digo ao mar: conheço tuas histórias, não tente me iludir.
Entretanto, conheces as minhas?
Sabes dos monstros que habitam essas terras?

Atenta, observo o chamado das ondas
e penso que a terra já não é suficiente pro meu passo errante.
Mergulho fundo e vou seguindo pelo mar
atrás do canto da sereia.




quarta-feira, 22 de outubro de 2014

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Pontuação

Dois pontos,
às vezes,
separam uma vida inteira.

sábado, 11 de outubro de 2014

Escrever é preciso, falar também.

Escrevo sobre o amor porque palavra falada exige manejo que ainda me escapa.
Não me ensinaram a cartilha do verbo soltar, desprender.
Assim, carrego (di)versos sentimentos
da ponta do pé
até
o nó da garganta.

Agora, em avançado tempo, percebo a escrita como remédio que alivia os males de uma vida inteira
expelidos, forçosamente, na tosse de paixões ressecadas e dissecadas pela memória.

Purifico meu peito, aos poucos, e exercito a falação.
Escuto com encantamento de bebê os primeiros sons de saltitantes acordes
boca afora.

Sim, eu também falo.
À despeito dos ouvidos desatentos,
dos julgamentos de juízes reais e imaginários,
do machismo mofado que insiste em emudecer a voz do ser Mulher.

(Di)versifico, sinto, escrevo, fora de qualquer ordem, sobre o amor e outros demônios.
E solto no vento.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

11º MANDAMENTO: NÃO DESAPAREÇA NO PASSADO

Eu nunca errei em amar, posso ter errado o destino de meu amor.

Não darei ao passado minha personalidade, minha paixão, meu temperamento, minha esperança.

Não desisto de minha alegria porque alguém não entendeu antes. Não desisto de minha ingenuidade porque alguém não me cuidou antes. Não desisto de minha coragem porque alguém se acovardou antes. Não desisto de mim porque já sofri antes. Amar é continuar sendo até acertar a companhia.

Fabrício Carpinejar

terça-feira, 9 de setembro de 2014

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Gestos

A mão desliza sobre o rosto de duras feições,
feições que dizem algo que não se pode decifrar,
só mesmo com palavra falada.

A palavra sentida (angústia que carrego no peito)
agarra com garras afiadas a garganta
tão arranhada,
e fica presa num nó;
transmutando-se em voz muda,
calada.

O rosto roça a barba mal aparada
como que implorando:
diga o que não consigo perguntar!

Olhos alheios, duas jabuticabas maduras,
permanecem inertes
(e a ideia fixa de ver alguém que quer partir).
Banquete de ilusões sob o frio sereno da madrugada.

Se nada é dito, sobram gestos.
Generosos beijos e carícias de quem ama
e deseja ser amada.

sábado, 28 de junho de 2014

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Diálogo Noturno

No quarto, com a casa vazia, a dor me espreme
“Por onde andava? Estava sumida” – eu pergunto.
E ela diz “por aí...”
Volto ao trabalho, penso nos prazos,
tento arrumar um assunto.
E ela, um rio silencioso que corre perene,
sussurra irônica ao pé do ouvido:
- viva e seja feliz, mesmo sabendo que habito em ti.