segunda-feira, 26 de junho de 2017

Poema do adeus

Todos os poemas foram escritos pra você,
até aqui.
Até aqui, todos os poemas têm você nas entrelinhas.
Estou farta de você em tanta poesia.

Daqui pra frente os meus versos serão livres,
serão livres os meus verbos,
os meus gestos, tudo.

Decreto que libertarão de ti
os meus afetos.
Nem raiva e nem saudade.
Mais essa linha e nenhuma outra além.

Despeço-me de ti agora,
por aqui
e até aqui.
Adeus.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Outras primaveras

Tenho segredos de flores guardados
no quintal,
das rosas, vermelhas, azuis e amarelas,
todas as cores.
Aprendi com minha avó o cuidar
das coisas simples,
por ela tudo floresce e perfuma.
"Podam-se as dores pelo talo",
disse uma vez. Eu nunca esqueci.

Tenho segredos de flores guardados
no quintal sem muro.
Favor chegar com os pés mansos, descalços, 
olhos fechados,
e deitar sereno sobre a grama verde.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Amor nos tempos da internet II

Quem sabe o que se passa na caixa escura do pensamento?
Não tem código que desvende a solidão humana
que reside nas fendas de um coração ameaçado
pela dor,
pelas ausências
e pelo perfume que se esvai com o vento.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Amor nos tempos da internet

Deslizo, gentilmente, minha mão de mouse em sua face colorida
– na foto do perfil.
Declaro o que sinto olhando bem no fundo da tela.
Assumo o incontornável desejo, com voz firme, para os microfones.

Não há o que esconder,
tudo está aberto aos quatro cantos
do meu quarto.

Tudo acontece
(na realidade virtual).

sábado, 3 de dezembro de 2016

Mais dia, menos dia

Um dia a mais sem você
é um dia a menos de você
é, apesar de você, dia
qualquer dia.

Um dia com você
é todo um dia,
mesmo que não seja dia.

Noite toda com você
não é mais um dia.

sábado, 5 de novembro de 2016

Ladrão de meia tigela

Você que me rouba de mim e não se entrega
ladrão de meia tigela que espreita na noite,
que toma de assalto um beijo distraído
e foge com medo dos próprios instintos

Arranco de ti confissões sem palavras,
subverto meu ódio e transformo em afago.
Afasto antes que me arrependa do fim
e não te ameaço por pena da tua miséria.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Alucinação

O silêncio que enlouquece, um açoite.
Grito seu nome pra dentro de mim.
Passos que seguem outras direções,
agarro assim a lembrança de quando
a lua se fez sol.

Sua imagem surgindo na porta,
miragem no deserto da noite.
Voz que não escuto, distante.
Olhos que não enxergam o fim.